Personalidades do Vôlei

Por Onde Anda?

Domingos Maracanã

21.05.10

Muitos consideram a Geração de Prata como o divisor de águas do vôlei brasileiro. Afinal, foi na década de 80 que o país começou a conquistar resultados importantes a nível mundial, como a medalha de prata na Olimpíada de Los Angeles-84. Com investimentos em marketing e nas categorias de base, o Brasil se mantém desde então como potência na modalidade.

Um dos jogadores importantes durante este "boom" foi Domingos Lampariello Neto, conhecido como Domingos Maracanã, nascido em 7 de março de 1961.

Em entrevista exclusiva ao Vôlei Brasil, ele conta como começou a jogar voleibol, fala de onde surgiu o seu apelido, relembra o memorável desafio no Maracanã contra a Rússia e diz como era a relação com os fãs da época. Pai de dois filhos que jogam vôlei na Europa, Domingos Maracanã trabalha com projetos de inclusão social e tem uma empresa prestadora de serviços. Confira:

VB - Algum familiar mais velho que você foi atleta?

Domingos Maracanã - “Não tenho ninguém da família que jogava vôlei, futebol ou qualquer modalidade”. 


VB - Quando começou a sua relação com o voleibol?

 

Domingos Maracanã - “Na escola, quando eu estava no ginásio. Tinha uns 12 anos. Comecei a me interessar e a gostar do jogo. Eu adorava jogar futsal na escola, mas comecei a crescer muito: o famoso estirão do crescimento quando somos adolescentes”.


VB - Quando você percebeu que iria levar o voleibol a sério?

 

Domingos Maracanã - “Quando comecei a jogar no E.C. Pinheiros. Seis meses após disputar o primeiro campeonato, fui convocado para a seleção brasileira infanto. Na sequência, vieram as seleções de novos, juvenil e adulta”.


VB - Você mede 1,97m. Como surgiu o apelido “Maracanã”?

 

Domingos Maracanã - “Apareceu logo na primeira seleção brasileira infanto. Foi dado por um carioca que jogava no Botafogo. Eu era o mais alto entre todos os convocados”.


VB - Você viveu na seleção e nos clubes (Pirelli e Banespa) a época do "boom" do vôlei. Como foi essa transição?

 

Domingos Maracanã - “Foi um momento mágico, no qual todos os jogadores tinham um objetivo: buscar resultados. Para isso, deveríamos abrir mão de muitas coisas e nos dedicarmos ao máximo aos treinamentos, com muito foco, determinação e superação. Fomos conquistando com muito trabalho, muitas horas em quadra, pista, sala de musculação, piscina... tínhamos uma meta: melhorar para ganhar as medalhas”.


VB - O que mudou após a conquista do Pan de 83? 

Domingos Maracanã - “Começaram as cobranças. Até então éramos a zebra. Veio a obrigação de ganhar a medalha olímpica. Afinal, havíamos conquistado o bronze na Copa do Mundo-1981, a primeira medalha para o vôlei brasileiro na competição; o ouro no Mundialito do Rio de Janeiro-1982, após vitória por 3 a 2 sobre a até então imbatível Rússia, de Savin, Zaitsev & Cia; a prata no Mundial-1982; e o ouro no Pan- Americano-1983. Isso mexeu com todos nós. Ninguém estava preparado para essa ascensão meteórica. Foi tudo muito rápido e novo! Ninguém nos conhecia e, de repente, estávamos em todos os jornais, revistas, tvs e rádios”.

VB - O que você poderia dizer sobre o amistoso no Maracanã entre Brasil x Rússia, em 1983?

 

Domingos Maracanã - “O jogo foi muito emocionante. Não vou esquecer aquela noite. Chovia e 93.000 pessoas estavam nos estádio, esperando pelo desafio contra os gigantes do vôlei: a imbatível seleção russa. O jogo já tinha sido transferido três vezes. Na entrada do túnel para o gramado do Maracanã, foi estendido um carpete cinza, onde os jogadores eram apresentados um a um pelo alto-falante, enquanto iam até o centro da quadra. Na hora de o jogo começar, a chuva apertou. Tivemos a ideia de pegar o carpete e colocar na quadra para evitar escorregões. As linhas foram feitas com esparadrapos. No fim, ganhamos por 3 a 1 e vimos o Maracanã delirando. Foi demais! Uma festa inesquecível para quem viu e que marcou todos nós”.


VB - Qual a importância da medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984 para o vôlei brasileiro?

 

Domingos Maracanã - “Depois da medalha de prata, o Brasil virou referência para América Latina e para o mundo. Todos sabiam que existia uma escola de vôlei. Era um misto de vôlei asiático com europeu. Nasceu a escola brasileira com estilo: velocidade e ginga no ataque e um volume de jogo maior em função de um bloqueio melhor”.


VB - De que maneira mudou a relação dos fãs após a conquista da prata?

 

Domingos Maracanã - “Os fãs começaram a aparecer em maior quantidade principalmente nos jogos da seleção. Lembro que gostávamos de jogar no Nordeste, onde éramos muito assediados na rua nos ginásios”.

 

VB - Você se recorda de algum fato curioso com fãs?

Domingos Maracanã - “Quando acabou um amistoso da seleção na cidade de Niterói, houve invasão de quadra e tivemos de sair correndo. A TV Globo estava lá e filmou tudo. Depois, a reportagem comparou o fato com os fãs indo atrás dos Beatles. Nós rimos muito, pois parecíamos uns malucos correndo e os fãs atrás”.


VB - Como era o grupo da Seleção Brasileira na época?

 

Domingos Maracanã - “Tínhamos um grupo maravilhoso, com pessoas engraçadas, como Badalhoca, Bernard e Rui. Todos eram meus amigos: Xandó, Amauri, Renan, Montanaro, Cacau, Badá, Bernard, Bernardinho, Leo, Marcus Vinicius, Fernandão, Rui, Carlão...”


VB - Você também atuou em Seul-88? Qual era a diferença entre os times de 84 e 88?

 

Domingos Maracanã - “A diferença foi na preparação para a Olimpíada. Começou com um técnico, o coreano Sohn, que convocou um grupo jovem. Depois, tivemos somente um mês com outro grupo até o início da Olimpíada. O grupo já não era mais o de 84. Vieram jogadores mais novos, como Mauricio, Carlão, Pampa, Paulão e Bocão. Era uma equipe com mais qualidade técnica, mais forte e com grande potencial. Mas com pouco tempo de preparação e poucos jogos internacionais. Começava a mudar o estilo de jogar, com o aparecimento do Mauricio. O estilo de jogo ficou mais veloz e ele tinha uma característica de inversão de jogo: era mais atrevido e imprevisível”.

 

VB - Você conquistou dois títulos brasileiros e, mais tarde, foi atuar na Itália. Quais as principais lembranças de lá? 

Domingos Maracanã - “Na Itália, joguei duas temporadas. O campeonato era muito difícil, bem organizado e com várias divisões. Mas, com algumas sociedades irresponsáveis, levei calote de Spoleto e Mantova. Fiquei chateado e voltei em definitivo, depois de jogar como italiano naturalizado”.

 

VB - Conte um pouco sobre a sua passagem pelo vôlei de praia, modalidade que também estava numa fase de transformação.

Domingos Maracanã - “Quando voltei para o Brasil, o vôlei estava em crise e não tinha mercado para todos. Fui para o vôlei de praia e adorei. Fui até bem. Passei pelo qualifying e fiquei em nono e 11º em duas etapas disputadas. Queria ter dado continuidade, mas tinha dificuldades, como a falta de uma praia por perto, trabalho... enfim, ficou difícil. Infelizmente. Fiquei muito triste, pois gostaria de ter jogado mais tempo. Atualmente, gosto de jogar vôlei de praia”.


VB - Dos conselhos e aprendizados que você teve com grandes treinadores e jogadores, poderia citar algum que recebeu e leva para o resto da vida?

 

Domingos Maracanã - “Tive grandes mestres: Bebeto de Freitas, Jorge de Barros (Jorjão), Paulo Sergio (Major), Brunoro e Nuzman. Foram pessoas que me ensinaram muito como jogador, preparação, condução, relacionamento, estratégia, organização... hoje em dia, trabalho e sigo os exemplos desses profissionais”.


VB - O que significa estar eternizado no Hall da Fama do vôlei brasileiro, no CDV-Saquarema?

 

Domingos Maracanã - “Fiquei muito feliz com a homenagem e o reconhecimento da CBV por lembrar e resgatar a nossa caminhada para o sucesso do voleibol. Foi um grande presente para todos os jogadores da nossa geração tão vitoriosa”.


VB - Você trabalha atualmente com projetos de inclusão social?

 

Domingos Maracanã - “Trabalho com projeto de inclusão através do futebol, na Zona Oeste de São Paulo. É um projeto da Federação Paulista de Futebol (FPF) que cuida de meninos em situação de risco. Fica no Nacional A.C., na Barra Funda, e sou o coordenador desde 2004. Atendemos mais de 150 meninos de 10 a 17 anos. Desde o início, já foram atendidos mais de 1800 meninos. O objetivo é dar oportunidade aos meninos carentes que têm vontade de frequentar uma escolinha de futebol. Todos recebem uniforme, merenda, bebida isotônica de um parceiro, recebem cestas básicas e seguro. Todos devem estudar. Fazemos palestras e passeios aos museus, damos aulas de Língua Portuguesa, Ciências... o projeto tem objetivo de educar e fazer inclusão social”.


VB - Você também trabalha com marketing esportivo?

 

Domingos Maracanã - “Tenho uma empresa prestadora de serviço na área de marketing, palestras, clínicas e organização de eventos”.


VB – Fale um pouco da sua vida familiar atualmente.

 

Domingos Maracanã - “Moro em São Paulo, sou solteiro (namoro há 2 anos) e tenho dois filhos. Davidson (29 anos) é líbero na série A1 italiana (Pescara), e Danillo (27 anos) atua como ponteiro na série A1 espanhola (Barcelona). Fico muito feliz por eles seguirem o mesmo caminho que eu. Pena que estão longe de mim. Gostaria que eles estivessem por aqui, mas Deus quis assim. Sinto muito orgulho deles”.


Equipe VôleiBrasil

 

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