Personalidades do Vôlei

Por Onde Anda?

Ana Moser

Considerada um dos grandes símbolos do voleibol feminino do Brasil, Ana Beatriz Moser leva na bagagem uma série de momentos históricos. Nascida em Blumenau, a ex-jogadora começou a praticar vôlei aos sete anos de idade. Aos 16, foi convocada para atuar na seleção infanto-juvenil, em São Paulo. Em 1987, passou a atuar na seleção feminina adulta. Vestindo a camisa número 2, atuou como titular nas Olimpíadas de Seul (1988) e de Barcelona (1992).


Em clubes, passou pelo Transbrasil, Sadia E.C., Colgate/São Caetano, Leite Moça, Mizuno/Uniban, Dayvit, Universidade Guarulhos e BCN/Osasco.


Pela seleção brasileira, conquistou títulos importantes como o Grand Prix, em 94 e 96, e a medalha de bronze em Atlanta (1996). Conhecida por sua dedicação e temperamento forte, Ana enfrentou, ao longo da carreira, uma série de problemas físicos. Em 95, sofreu uma grave contusão no joelho. Contra o que os médicos esperavam, a ex-atleta se recuperou a tempo de participar das Olimpíadas de Atlanta, onde ajudou sua equipe na conquista do bronze. A medalha foi a primeira da história do vôlei feminino no Brasil.


Em 1999, Ana anunciou oficialmente sua saída das quadras. A despedida foi marcada por um jogo disputado entre as “equipes” Amigas da Ana Moser e Seleção Superliga. Em 2003, Ana passou a auxiliar o técnico José Roberto Guimarães na Copa do Mundo. Com um ótimo desempenho, a ex-jogadora ajudou a seleção a garantir a segunda colocação no campeonato. Além disso, também escreveu o livro “Ana Moser: pelas minhas mãos”, onde conta a trajetória de vida nos seus 15 anos de voleibol profissional. Em 2009, Ana foi eternizada ao entrar para o seleto Hall da Fama do Vôlei. Atualmente, ela é comentarista de jogos do canal de TV a cabo ESPN Brasil e na TV Bandeirantes e presidente do Instituto Esporte & Educação. A entidade atende a crianças e adolescentes em atividades esportivas e sócio-educativas e promove a formação de professores e estagiários e desenvolvimento de uma metodologia de esporte educacional.

VôleiBrasil - Você ainda joga vôlei?


Ana Moser: Não jogo mais. Eu parei com 31 anos por causa de uma artrose crônica no joelho esquerdo, quadro que se estabeleceu quando eu tinha 26 anos. O voleibol é um esporte que, praticado no alto rendimento, provoca desgaste nas articulações do joelho, coluna lombar, ombro, etc. No meu caso, foi isso que aconteceu, eu tenho uma lesão crônica que me impede até de correr. Por isso, depois que encerrei minha carreira profissional, fui aprender outro esporte, que é o surf. Na água, com menos impacto do que em pisos duros, eu consigo fazer atividade.


VB – O temperamento forte é uma das suas marcas. O que te deixava mais irritada em quadra?


Ana Moser: O que mais me deixava irritada eram questões como: falta de respeito do adversário; falta de comprometimento e esforço das colegas; injustiça, ou condições que privilegiem uma ou outra pessoa.


VB – Você também é conhecida pela dedicação ao vôlei. Como foi enfrentar as lesões físicas sofridas ao longo da sua carreira?


Ana Moser: Não foram desafios simples, especialmente quando a artrose no joelho se tornou crônica, não foram momentos fáceis. Ao mesmo tempo foram oportunidades para me desenvolver como pessoa e mesmo como atleta. Isso porque, por causa das cirurgias e dos períodos de recuperação, eu tive que aprender outras maneiras de fazer o meu treinamento, a preparação física e as ações necessárias para que eu pudesse participar dos jogos, seja na seleção ou nos clubes. Fui talvez a primeira atleta, por exemplo, a ter o RPG e o Pilates como parte regular do treinamento. Como não conseguia participar de todos os treinamentos com bola e fazia uma carga de trabalho muito menor, tive que me desenvolver mais tecnicamente, para poder chegar na hora do jogo e não errar os fundamentos e ajudar as minhas equipes.
Hoje em dia eu carrego várias seqüelas, dores no ombro, no quadril, além do joelho, claro. Tenho que tomar muito cuidado, ter sempre uma rotina de preparação corporal, para que eu tenha boa mobilidade quando for mais velha.


VB – Em 98, você desenvolveu um projeto de formação de atletas baseado no ensino de voleibol em escolas públicas e privadas do Brasil. Qual era seu objetivo?


Ana Moser: Em 98 começamos um projeto, treinamos alguns professores e tínhamos algumas turmas de alunos em um colégio e em um clube. O objetivo era desenvolver um método de ensino do voleibol para crianças a partir de 7 anos. Ensinar as habilidades, as táticas dos jogos e, principalmente, ensinar a gostar de esporte. Para isso utilizávamos uma didática de aula baseada nos jogos, diminuindo e simplificando os jogos para todos poderem participar e ter sucesso.
Depois que parei de jogar, continuei investindo neste projeto até que em 2001, o projeto virou uma ONG, o Instituto Esporte & Educação. Daí a idéia do ensino do voleibol foi ampliada para todas as modalidades esportivas e para uma preocupação para além do esporte, para as relações entre os moradores de comunidades de baixa renda, para projetos de educação, ampliação cultural, de geração de renda, formação de grupos de jovens, grupos de mães, etc. Hoje somos referencia nacional em Esporte Educacional, temos cerca de 200 professores e estagiários de educação física atuando em mais de 40 núcleos esportivos, atendendo semanalmente cerca de 15 mil alunos. Também atuamos em projetos itinerantes em 16 estados brasileiros, em parcerias com UNICEF e várias empresas, para formar professores, educadores e gestores, com objetivo de ampliar e qualificar a prática de esporte e beneficiar o maior número de pessoas o Brasil. Acreditamos que o esporte é direito de todos, independente das características de cada um. Além de ser direito de todos, é também uma estratégia inteligente, pois quanto mais pessoas praticando esporte, mais e melhores atletas irão surgir.


VB – Qual foi a situação mais difícil que você já enfrentou?


Ana Moser: Acho que não teve uma situação mais difícil. Não consigo determinar o que foi mais ou menos difícil. Acho que, antes de 94, a partir de quando a seleção feminina passou a figurar constantemente nos pódios de torneios internacionais, sofríamos muito preconceito. Diziam que as mulheres não tinham firmeza de vontade e tinham medo na hora das decisões. Então a nossa geração teve o mérito de mudar essa realidade, mostrar que as mulheres também são capazes no esporte. Depois das conquistas da nossa geração, essa cobrança diminuiu bastante.


VB – Como foi entrar para o Hall da Fama do Vôlei?


Ana Moser: Foi muito interessante, porque aconteceu 10 anos depois de ter parado. Então a minha vida já tinha mudado muito e foi uma grande surpresa. Achei muito gratificante, pelo reconhecimento e por representar a nossa geração entre os maiores ícones do voleibol mundial.


VB – Quais jogadoras você mais admira?


Ana Moser: Na minha lembrança vem jogadores como a peruana Cecília Tait, as cubanas Mireya Luiz e Magali Carvajal. Mas são várias para serem citadas. Vi jogadoras fantásticas em ação e aprendi muito com todas elas.


VB – Qual conselho você daria para quem quer seguir carreira como jogador de vôlei?


Ana Moser: Persistência e preparação. Atleta tem que se preparar como pessoa, tem que estudar, procurar oportunidades de formação, ler bastante, se instrumentalizar. Assim a pessoa pode se tornar um atleta melhor e, também, se preparar para a vida depois de encerrar a carreira de atleta profissional. E ter objetivos, o que precisa melhorar e como fazer isso. Tentar aprender cm técnicos e preparadores físicos, para ter mais consciência daquilo que está fazendo. E dar sempre o máximo, não economizar no esforço, na vontade de melhorar e ajudar a equipe.
 

Voltar para a listagem