
07.06.10
Ana Lucia de Camargo Barros (São Paulo, 16/12/1965) é uma das principais atacantes da história do voleibol brasileiro. Com 1,78m, ela surpreendia as adversárias com potência, velocidade e técnica. Pela seleção brasileira, apesar da forte geração peruana, foi campeã sul-americana nas três categorias: infanto-juvenil (1982), juvenil (1984) e adulta (1991).
Após ter sido eleita a segunda melhor jogadora do Mundial Juvenil (1985), viveu o auge no Pan de Indianápolis (1987) e disputou duas Olimpíadas (Seul-1988 e Barcelona-1992).
Por clubes, conquistou títulos nacionais por Paulistano (1982 e 1983) e Nossa Caixa/Recra (1993/94), além de seis campeonatos paulistas. Em 1985, inclusive, foi a MVP do Brasileiro e ganhou o troféu de Melhor Saque.
Ana Lucia lembra, em entrevista exclusiva ao VôleiBrasil, que as contusões mudaram o rumo da sua carreira. Com apenas 28 anos, anunciou sua primeira aposentadoria. Três temporadas depois, voltou às quadras... e com o retorno reapareceu o fantasma das lesões, sendo forçada a "virar" líbero . Confira:
VB - Você tem o esporte no sangue. O seu avô (Bento de Camargo Barros) praticou arremesso de disco/martelo e competiu em Los Angeles-32. O seu pai foi jogador de basquete e campeão de tiro. O tio Amauri Passos é um dos maiores craques da história do basquete brasileiro. Com familiares de destaque em diversas modalidades, você começou pelo de sua mãe: a natação. Você nadou por quanto tempo?
Ana Lucia - “Em casa, todos nós começamos pela natação. Depois, cada um foi se achando aos poucos. Eu fui a primeira a fugir das piscinas, aos 8 anos. Nadei pouco tempo... uns três anos. Até cheguei a disputar Campeonato Paulista, mas sentia que ali não era o meu lugar”.
VB – No Paineiras do Morumbi, você chegou a jogar vôlei no adulto?
Ana Lucia - “Não. Só categoria de base. Joguei 5 anos no Paineiras, onde aprendi tudo o que fui (certo ou errado) na minha carreira. Saí de lá com 14 anos, mas era tudo muito intenso. Apesar do time ser de 2° Divisão, treinávamos num ritmo alucinante, que só tive novamente bem mais tarde no Paulistano”.
VB - Alguma outra atleta desta época do Paineiras também alcançou o sucesso no voleibol?
Ana Lucia - “O Paineiras contava com algumas jogadoras de nível técnico bom, que teriam se destacado, caso tivessem a mesma oportunidade. Mas é o ‘se’, o ‘talvez’...”
VB - Quando a treinadora Cristina (irmã da Ida) a levou do Paineiras para o Paulistano, em 1980, qual foi a sua sensação?
Ana Lucia - “Que eu ia chegar onde eu queria. Sempre tive isso muito nítido. Sempre fui muito determinada. Se tivesse que bater a cabeça na parede, batia. A época do Paulistano foi maravilhosa. Eu ainda não tinha problemas físicos e era muito forte. Nossa equipe era uma máquina em todas as categorias. Uma delícia”.
VB - Quais as lembranças (dentro ou fora de quadra) que você tem de Sílvia Montanarini e Lan Ping, atletas que você admirava?
Ana Lucia - “As duas, além de muito técnicas, tinham classe para jogar, pareciam bailarinas com uma bola de vôlei. E fora de quadra sempre exemplares”.
VB – As pessoas se lembram ou sabem da diferença do vôlei atual para o da sua época?
Ana Lucia - “Memória de brasileiro é curta. Não existe respeito, não existe ‘história’. Se você perguntar para a metade da Seleção Brasileira atual quem foi Célia, Regina Uchoa, Fernanda Hemerick e até eu... ninguém sabe! Mas isso é assim em todos os segmentos. No Brasil, ninguém cultiva o respeito ao passado. Só se lembra quando o cara já morreu... aí fazem homenagens. Tarde demais! Acho que muitas ficaram sentidas e são até hoje assim. E com toda a razão!”
VB - Aos 17 anos, você era infanto-juvenil e conquistou seu primeiro grande título: o Brasileiro Adulto de 1982, na final contra a Pirelli. Qual a sua lembrança daquele dia e fale um pouco da ansiedade ao ver o ginásio do Ibirapuera completamente lotado?
Ana Lucia - “Aquele dia foi o carimbo do meu passaporte para a Seleção Brasileira. O Luciano do Valle fez meu nome ser conhecido ali. Foi uma loucura aquele ginásio lotado naquela época. Eu sempre gostei foi disso, sempre gostei da torcida, de gente. Acho que esse é o grande barato”.
VB – E hoje em dia você curte ver jogos em estádios...
Ana Lucia - “Vou ao estádio ver futebol, porque acho demais! Sempre brinco que o jogo é desculpa, o bom mesmo é a energia que rola nas arquibancadas. Posso até ver outro time jogar que não seja o Corinthians. Confesso que queria é ter jogado com a minha torcida nas arquibancadas, a Fiel... torcendo a meu favor, é lógico! A Fiel é maravilhosa... sorte do Ronaldo que tem uma identificação muito legal com a torcida”.
VB – Você viveu a transição do vôlei "dito amador" para o profissional. Qual era o sentimento das jogadoras mais antigas do elenco com relação a esse "boom" do voleibol? Mais dinheiro, mais cobrança, mais treino...?
Ana Lucia - “Mais dinheiro, não! A geração anterior a minha quase não ganhou um centavo. A minha (peguei três gerações do vôlei) treinou muito! Treinávamos como animais, ao extremo! Lembro do Jorjão falando: tem que vomitar, cuspir sangue... é o que fazíamos. Saíamos arrebentadas e sangrando dos treinos de defesa. Tínhamos que colocar protetores, joelheiras... espumas nas costas, nas laterais das coxas. Hoje já é tudo muito comedido, tudo muito direcionado. Encurtamos o sofrimento dessa geração (risos)”.
VB - E os Jogos Pan-Americanos de Caracas, em 1983?
Ana Lucia - “Não fui ao Pan de 83. Abandonei a concentração da Seleção Brasileira no Rio de Janeiro, peguei um avião e fui embora sem dar satisfação a ninguém”.
VB - Você, Denise, Ana Richa e Adriana Samuel, por exemplo, ajudaram a quebrar a hegemonia do Peru no continente. O que foi determinante para o Brasil mudar esse cenário sul-americano?
Ana Lucia - “Acho que foi a transição. Exatamente o que falava de treinarmos como umas loucas. Modificaram o padrão, a filosofia... e foi uma época de muito intercâmbio. É preciso jogar, perder, perder, perder... para aprender como se joga, como se ganha e, principalmente, como se perde. Na realidade, não sabíamos perder, por isso não ganhávamos. Tivemos muitas oportunidades entre os anos 1980 e 1990, que dá até raiva de lembrar. Tem jogos que simplesmente deletei. Se você me perguntar quem, quando, onde, não sei te responder. Perdemos até Barcelona. Aí sim, aprendemos com as derrotas e o jogo virou. O Brasil, enfim, aprendeu a ganhar!”
VB - Em 1985, você foi eleita a MVP do Brasileiro de Clubes e ainda ganhou o prêmio de Melhor Saque. No mesmo ano, foi eleita a segunda melhor jogadora do Mundial Juvenil na Itália (atrás de Mireya Luis). O carinho dos fãs aumentou na época? Como era?
Ana Lucia - “Essa época foi o ‘boom’ do vôlei e eu fazia parte dele. Foi tudo junto, com a renovação, a torcida começando a participar... estávamos todos engatinhando e crescemos juntos: jogadores, mídia, torcida... eu achava natural, porque cresci no vôlei com isso!”
VB - Qual a diferença das grandes equipes que você atuou (Paulistano/Pão de Açúcar, Transbrasil, Pirelli, Pão de Açúcar/Colgate, Blue Life/Recra, Nossa Caixa/Recra, Uniban/São Caetano e Petrobras/Macaé) para as principais equipes do vôlei atual (cobrança, treinamentos, espaço na mídia e média salarial)?
Ana Lucia - “Demos tudo de bandeja para essa geração. E isso é natural, as coisas evoluem. Assim como a minha geração também teve herança das passadas. Hoje é extremamente profissional. Desde o pré-mirim, assina-se contrato de menina de 10 anos. É isso aí, só tenho pena da cobrança que existe em cima dessas crianças”.
VB – Você já presenciou esse tipo de situação?
Ana Lucia - “Chega a ser cômico ver as mães na arquibancada quase que se engalfinhando. Outro dia, assistindo a um jogo, achei que duas iam rolar arquibancada abaixo. Isso tudo não é amor ao esporte, não! É diferente dos meus pais, por exemplo, que não perdiam um jogo ou uma competição minha e dos meus cinco irmãos. Isso é porque hoje essas crianças são arrimo de família e ai delas se não jogarem, ou pior, se jogarem mal...”
VB - Nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis você atravessava um grande momento. Um ano depois, foi aos Jogos Olímpicos de Seul. E quatro anos mais tarde, disputou a Olimpíada de Barcelona também. Como é o clima olímpico?
Ana Lucia - “Minha melhor fase foi em Indianápolis. Eu estava com problema no ombro, era poupada nos treinos e fazia um trabalho paralelo com o Júlio Noronha (preparador físico). Eu tinha um rendimento incrível na quadra. Alguns jogos não foram televisionados aqui para o Brasil e nunca tive acesso a eles. Gostaria muito, muito de vê-los e tê-los. A Olimpíada é o sonho de todo atleta e, apesar do caminho ser natural, é indescritível. É como ir à Disney ainda garoto... é mais ou menos a mesma sensação: é mágico, fantástico, tem um cheiro inebriante. Será que consegue me entender? Acho que só sabe quem foi!”
VB - Na época, a seleção brasileira mudou constantemente de treinador. Depois, vieram os trabalhos mais duradouros de Bernardinho e José Roberto Guimarães. Você considera que a manutenção de um trabalho a longo prazo é fator fundamental para os pódios conquistados atualmente?
Ana Lucia - “Sem dúvida alguma! É exatamente o que falei de padrão e filosofia. Não dá para trocar a cada dois anos. Os trabalhos são muito diferentes... o raciocínio, o comando, a amizade, o respeito, a tolerância... e isso tudo em mão dupla: técnico e jogador, e vice-versa. É muito complexo, e o Brasil só ganhou realmente quando parou com essa coisa de trocar técnico e jogador a toda hora”.
VB - Lembra de algum conselho ou orientação de algum técnico, dirigente ou jogadora, que tenha sido muito válido na sua vida?
Ana Lucia - “Foram muitos, mas o principal é aquele que todo mundo sabe e toda torcida cobra: ‘jogar com o coração’. Aí já não faz muita diferença o ganhar ou perder, porque você colocou sua alma ali, deu tudo e o melhor que poderia ter feito. É isso: esporte é alma, vida, emoção! Caso contrário, não vale a pena”.
VB - Entre a primeira aposentadoria (temporada 1993/1994, aos 28 anos) até o retorno em 1997 (Uniban/São Caetano), como foi a passagem no vôlei de praia?
Ana Lucia - “Foi rápida e na realidade serviu para eu entrar em forma. Não me dei bem na areia. Eu já não tinha arranque e explosão por causa do joelho. Isso me ‘matava’ na areia”.
VB – Você se consagrou como uma atacante potente, de braço rápido e muita técnica. Como foi atuar de líbero (1998/1999, em Macaé), evitando o que você fazia bem: pontos?
Ana Lucia - “Para falar a verdade, foi péssimo. Apesar de eu sempre ter tido um fundo de quadra bom, não era essa a minha principal característica. Gostava de atacar e ‘enfiar a porrada na bola’. Isso me fazia feliz, me fazia ser aquela jogadora guerreira. Sendo líbero, isso morreu. E tem um lado que acho muito cruel: se você estiver em um dia ruim, não dá para salvar nada. Já sendo atacante, se você está em um dia ruim de bloqueio, pode ir bem no saque ou no ataque. Naquele time tinha a Fabi, que hoje é a líbero da Seleção e era quem tinha de jogar na época. Eu “virei” líbero, pois não tinha condições mais de atacar... depois de cada jogo eu mancava por duas, três semanas ...”
VB – Você sente falta de disputar partidas de vôlei?
Ana Lucia - “Quando me perguntam se sinto falta de jogar, digo que não. Sinto falta de ‘dar porrada na bola’, porque eu me extravasava assim. E só mais tarde é que identifiquei essa necessidade”.
VB – Como é a vida de Ana Lucia atualmente?
Ana Lucia - “Sou diretora de um clube público (Clube-Escola Lapa) em São Paulo, o Pelezão, onde trabalho há quase dois anos, quando a Ida me indicou. Temos um timão, com Xandó, Domingos Maracanã, Ida, Ana Moser (com o Instituto), Patrícia Medrado (com o tênis), Paula (diretora do Centro Olímpico), Giovanni (do boxe). Tenho duas filhas (Ana Clara, de 6 anos, e Ana Carolina, de 5 anos), que são minhas companheiras, das horas boas, ruins, conturbadas... duas gracinhas, meus amores!”
Equipe VôleiBrasil
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