Personalidades do Vôlei

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RODRIGÃO

16.06.10

"Seja quem você for, de qualquer posição social, tenha muita força e determinação, e sempre faça tudo com muito amor, pois um dia você chega lá". A mensagem é do tricampeão mundial de Fórmula-1 Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991). No esporte, existem vários belos exemplos de vida, com trajetórias de superação. Lendo a entrevista abaixo, você saberá que a do meio de rede Rodrigão é uma dessas histórias de perseverança.

Campeão olímpico em 2004, Rodrigão se tornou um dos jogadores mais vitoriosos da história do voleibol. A sala de troféus do central tem outros títulos importantes, como Mundial (2002/06), Copa do Mundo (2003/07) e Pan (2007). Quando o assunto é Liga Mundial, só não esteve presente em uma das oito conquistas brasileiras (1993).

Naquele ano, o então menino Rodrigo Santana tinha 14 anos e teve seu primeiro contato com o voleibol: viu da arquibancada do Ibirapuera o Brasil enfrentar o Japão, pela Liga Mundial. A partir daí, inspirado no ídolo Tande, saía diariamente de Osasco (SP) para treinar no Banespa, sonhando um dia vestir a camisa verde-amarela. 

Em entrevista exclusiva ao VôleiBrasil, Rodrigão recorda a difícil caminhada até se tornar profissional: "Saía às 6 horas da manhã da periferia e ia até o Centro de Osasco. Lá estudava até o meio-dia. Depois, sem almoçar direito, pegava dois ônibus para chegar ao clube. Treinava e voltava para casa. Mas só chegava em casa por volta das 10, 11 horas da noite".

Confira: 

VB - Você praticou algum esporte antes de iniciar no voleibol?

"Fiz natação, mas só para aprender a nadar e a movimentar o corpo todo. Todos sabem que é um bom esporte para a saúde. E futebol, também, mas só de brincadeira: meu pai tinha um bar em Osasco, onde eu jogava por um time de Várzea como lateral-esquerdo... sou canhoto, né? (risos) Mas depois parti para o vôlei".

VB - Alguém da sua família jogou vôlei?

"Sou o único esportista da família. Minha mãe jogou basquete, mas só por lazer. E meu pai nunca praticou esporte profissionalmente".

VB - Como foi o início da sua trajetória nas quadras?

"Comecei a jogar vôlei após a Olimpíada de 1992, quando o Brasil foi campeão. Eu acompanhava as partidas todos os dias pela TV da escola, que praticamente parava para os alunos assistirem. Foi ali que passei a ter vontade de jogar, na própria escola, mas nada muito sério. Em 1993, fui procurar um clube para ver como era o vôlei. Eu já era alto. Pouco antes de completar 14 anos, fiz a peneira no Banespa. Fui aprovado por ser alto, e não pela habilidade. Foi quando tive oportunidade de treinar o ano inteiro, saindo de Osasco e indo até o Banespa diariamente".

VB - Você pensou em desistir?

"Era complicado. Eu saía às 6 horas da manhã da periferia e ia até o Centro de Osasco. Lá estudava até meio-dia. Depois, sem almoçar direito, pegava dois ônibus para chegar ao clube. Treinava e voltava para casa. Mas só chegava em casa por volta das 10, 11 horas da noite. Foi um ano complicado, tinha que ir na motivação, no sonho. Foi um dos anos mais difíceis, pois eu só treinava, e não jogava. Então, de onde tirar motivação para continuar nesse ritmo todo? Até que consegui, no fim daquele ano, ter uma boa evolução. No outro ano já me deram casa e estudava lá no Banespa mesmo... e era escola particular, o que nunca tive antes. A partir do segundo ano consegui ter um crescimento grande".

VB - Como foi sua participação em seleções de base?

"No terceiro ano de Banespa, fui para o infanto e logo depois chamado para a seleção paulista. Em janeiro de 96, começou a minha história com a camisa verde-amarela. Da chegada à seleção brasileira infanto, treinado pelo Percy Oncken, até o Mundial Juvenil em 99, com Marquinhos Lerbach, foram quatro anos na base. Quando voltei desse Mundial Juvenil, já passei a integrar o grupo da seleção adulta".

VB - Como era a estrutura antes do CDV-Saquarema?

"Agora é muito melhor. Quando você está nas categorias de base, tem de estar perto dos seus ídolos, convivendo com eles todo dia, para saber que pode chegar lá... hoje me dia, estou próximo do pessoal do juvenil, do infanto... às vezes conversam, apesar de serem meio tímidos, o que é normal. É uma motivação a mais para continuarem treinando 100% e chegarem um dia onde chegamos. Isso é muito importante. Em Saquarema, você começa a ver o seu sonho... que ele está ali e só depende de você para realizá-lo. Antes, sem Saquarema, era bem complicado. Ficávamos no alojamento do Mineirinho, da AABB... era realmente difícil. Para a seleção adulta, mudou pouca coisa. Em Saquarema, temos uma base melhor de treinamento, mais tempo para fazer as coisas. Mas para as seleções de base a mudança é muito grande, impressionante. Elas têm condições de fazer coisas que a gente não tinha".

VB - Quem era o seu ídolo?

"Meu ídolo já veio desde 1992, porque assisti muito a Olimpíada. Ali comecei a criar um sonho de chegar à seleção. Via muito o Tande jogar. Um cara que sempre jogava bem, sempre regular naquele time. Eu o conheci depois, e ainda consegui jogar junto com ele pouco tempo, entre o fim de 1999 e o início de 2000. É um cara que eu admiro desde aquela época. Não tive muito contato com ele, porque quando eu cheguei no time ele estava indo para o vôlei de praia. Depois, o Tande voltou para a quadra com objetivo de jogar a Olimpíada e eu fui o último corte. A convivência foi pouca, mas valeu a pena".

VB - Fale um pouco sobre treinadores que trabalharam com você...

"O primeiro a apostar em mim foi o Antonio Branco, das categorias de base do Banespa, que deu a vaga para eu treinar. Ele já revelou muitos jogadores, como Marcelo Negrão, Giovane e Tande. Quando comecei a treinar com o Percy na seleção, cresci muito. Depois, tive o Marquinhos Lerbach e cheguei até o Bernardo, passando pelo Radamés Lattari. Aqui na seleção, com Percy e Marquinhos, ganhei uma evolução muito grande. Aprendi muito com o Ricardo Navajas em Suzano, onde comecei a jogar bem cedo com o time adulto, em 96, ao lado de grandes craques como Giovane. Agradeço a todos que me ajudaram".

VB - Como você se sente agora, após atuar bem na temporada passada e afastar de vez o fantasma da lesão?

"Demorei um pouquinho, mas recuperei bem durante a Superliga. Gostei bastante de ter voltado ao Brasil e jogado aqui. Foi um bom campeonato para mim. Antes de me reapresentar à seleção, parei por 10 dias, curtindo férias. A temporada 2009/10 foi muito boa, porque fiz todo meu processo de recuperação, de volta às quadras. Eu consegui alcançar um bom nível nos playoffs finais da Superliga. Nosso time tinha algumas limitações e isso foi claro, não conseguiu chegar à final. Mas o grupo foi montado de última hora e não deu para se preparar tão bem. Mas ficar em terceiro lugar foi bom".

VB - Quais são as suas maiores lembranças em Ligas Mundiais?

"Vou contar duas: a primeira é da época em que eu ainda não jogava. No ano que comecei a acompanhar vôlei, em 1993, quando a seleção jogou contra o Japão, no Ibirapuera, foi meu primeiro contato com a modalidade, pois fui assistir a uma partida. E 10 anos depois, em 2003, joguei a final da Liga Mundial: aquele placar 31 a 29 no tie-break é inesquecível para os jogadores que participaram daquela campanha".

VB - O que Rodrigão gosta de fazer fora de quadra?

"Em Saquarema é internet o tempo todo, televisão, truco, pôquer... tudo para passar o tempo. Não tem opção de sair para jantar ou ir a um cinema no shopping... a gente se concentra bastante. Nos fins de semana, aproveito com a família para fazer justamente o que não fiz de segunda a sexta. Gosto também de livro, filme... jogo videogame com o meu filho em casa. Aqui na seleção, só brinco quando os outros jogadores começam a tirar muita onda no game de futebol... aí vou lá brincar um pouquinho, porque é um jogo bem alegre. O Sidão tira onda, mas ganhei dele por 3 a 1 e perdi a outra de 3 a 2. Os desafios foram em duplas: Rodrigão/Bruninho x Sidão/Sandro. Pelos resultados, estou no saldo (risos)".

VB - E nas longas viagens de avião?

"Tem que 'catar' coisas para fazer, né? O livro é um dos passatempos preferidos. No avião, pelo menos durante uma hora e meia você consegue ler. Mas imaginem aqueles voos de 12 horas de duração? Haja coisa para fazer! Gosto muito de ler Dan Brown. Estou quase no fim de 'O Símbolo Perdido'. Li toda série, todos os livros dele. É uma emoção a cada página. Você tem que ler para descobrir".

VB - Que tipo de música você curte?

"Pagode do Exaltasamba, sertanejo de Jorge & Mateus... eu curto e tenho até um pouco de amizade com eles". 

VB - Qual foi a sua viagem inesquecível?

"Atenas, onde conquistamos a medalha de ouro. Não me esqueço de cada momento que vivi lá".

Equipe VôleiBrasil

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